Texto 3.(Jesse Navarro)
Não é para me gabar, mas eu sempre tive motivos
de sobra para me considerar um ídolo das meninas do meu colégio. Sou alto,
loiro, forte e supercobra no vôlei e no basquete. Isso me tornava um cara
paqueradíssimo, que podia namorar ora uma, ora outra. Fidelidade eu só mostrava
pela motocicleta que ganhara do meu pai (apesar dos protestos da minha mãe).
Era uma CB400 transadíssima, e em volta dela normalmente se formava uma rodinha
de meninas à espera de carona, no final das aulas.
Qualquer uma delas morreria pela carona, pois todas sabiam o que acontecia depois, normalmente tudo isso ocorria às 17:00 horas.
Primeiro convidava uma para que eu a levasse para casa, podia ser qualquer uma para mim não fazia diferença. Em seguida íamos para o parque e lá nos beijávamos até dar 17:15 h. Comprava pra ela uma rosa e a deixava em casa despedindo-me com outro beijo sempre deixando-a querendo mais.
Minha rotina era sempre assim nunca mudava. Mas numa segunda-feira, minha vida mudou completamente.
Chegou no bairro uma notícia nova. Todos estavam comentando na escola. O papo ou a fofoca era sobre uma garota que havia se mudado com sua família, e que eles estavam vindo de muito longe.
E por coincidência, ela foi estudar na mesma escola que eu. Por algum motivo ela era diferente e eu senti isso no momento em que ela entrou naquela sala. Era incrivelmente linda e seria minha, pelo menos foi o que eu pensei.
Mas havia um problema, ela não queria ser minha, me ignorava e resistia todas as minhas cantadas. Conversava com todos inclusive os garotos, mas quando era comigo não passava de um oi.
Estava me sentindo diferente, a observava sempre e minha rotina já havia mudado e muito. Todo dia exatamente 12:30 h ela saía de casa e ia atrás oferecer-lhe carona. Como sempre ela recusava. Até que um dia estava chovendo muito, pensei em não ir para a escola mas de repente a vi passando em frente a minha casa. Peguei meu casaco rapidamente e saí. Lembrei-me que era uma garota muito estudiosa por isso não faltava às aulas, e por azar naquele dia o carro do seu pai quebrou, aquela era minha chance e eu não ia desperdiçar.
Então fui atrás e ofereci carona e por milagre eu recebi um sim como resposta. Nossa ida foi rápida, chegamos no colégio 12:45 h. Durante o trajeto ela não disse nenhuma palavra.
No final da aula ela voltou comigo mas algo diferente havia para que eu não a tratasse como as outras. Quando a deixei em casa ela me deu um beijo no rosto e entrou. Então fui embora com certeza surpreso e feliz. Passei a noite em claro pensando nela e em como eu estava me apaixonando sem mesmo tê-la beijado.
Quando era 07:30 h levantei e fui trabalhar. E em seguida fui para o colégio. Ao chegar lá, ela estava sentada no jardim da escola lendo um livro, de repente uma de suas amigas veio em minha direção e me entregou um bilhete e nele tava escrito: "Por favor poderia me levar para casa hoje? As. Mel"
Eu disse que sim, é claro. Durante a tarde inteira só houve trocas de olhares, e nada mais. No final da aula fiquei esperando sentado em cima da minha moto. Ela veio em minha direção devagar, subiu na moto disse oi. Quando estava levando-a para casa me lembrei do dia em que ela chegou e que eu pensava que só seria mais uma da minha lista. Com certeza eu estava errado.
Do nada ela pediu que eu parasse a moto. Eu obedeci. Ela desceu, se inclinou e me beijou. Foi o beijo mais suave, doce, gostoso e longo que recebi. Ela continuou andando sem nem olhar pra mim, larguei a moto no chão e saí correndo atrás dela.
Peguntei o por quê daquele beijo e a resposta que recebi foi que nem toda garota é igual e que eu era só mais um da lista dela.
Depois disso eu nunca mais a vi. Algumas pessoas dizem que ela foi morar com a tia na França, outras que a família ainda mora em São Paulo, só que em outro bairro. Só sei de uma coisa, depois daquela garota, eu nunca mais fui o mesmo.